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sexta-feira, 22 de junho de 2012

Olhos fatais

Esta poema de Henrique Rego provavelmente devido à sua extensão, só era cantada na sua totalidade por Alfredo Marceneiro, sobre a sua música do fado bailado. A versão que aqui trago é a de Manuel Cardoso de Menezes

A sorte que Deus me deu
e que sempre hei-de lembrar,
embora não seja ateu,
julguei encontrar o céu,
na expressão do teu olhar

Neste mundo mar de escolhos
Unindo os nossos destinos,
E nesta vida de abrolhos,
para mim teus lindos olhos,
eram dois céus pequeninos

No espelho do teu olhar
vi dois céus em miniatura
e para mais me encantar
iam-se neles mirar
na minha própria ventura

(esta só marceneiro cantava)

E tão mística atracção
tinha teu olhar profundo
que em sua doce expressão
eram um manto de perdão
sobre as misérias do mundo

Mas deitaste-me ao deserto
deste mundo enganador
hoje o teu olhar incerto
já não é um livro aberto
em que eu lia o teu amor

Enganaste os olhos meus
nunca mais te quero ver,
meus olhos dizem-te adeus,
teus olhos não são dois céus
são dois infernos a arder.

Coração pra amar a fundo
outro coração requer
se há tanta mulher no mundo
vou dar este amor profundo
ao amor doutra mulher




segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

A Lucinda camareira

Este fado é um clássico, criado por Fernando Maurício. mas que é muitas vezes cantado ao despique no fado bailarico de Alfredo Marceneiro. Quantas vezes o ouvi cantar, com este dois que aqui o interpretam ou ainda em quarteto com o Ricardo Ribeiro ou o Vitor Miranda, todos e o mestre que com a sua modéstia sempre os acarinhou, Muita saudade desse tempo

Fica aqui esta letra de Henrique Rego, nas vozes de Pedro Galveias e Diogo Rocha (por ordem de entrada em cena para quem não reconheça as suas vozes)


A Lucinda camareira
Era a moça mais ladina
Mais formosa, mais brejeira
Do café da Marcelina

De maneira graciosa / Sobre um lindo penteado
Trazia sempre uma rosa / Cor de rosa avermelhado
Eu vivi enfeitiçado / Por aquela feiticeira
Que airosamente ligeira / Servia de mesa em mesa
Tinha feições de princesa / A Lucinda camareira

Primando pela brancura / O seu avental de folhos
Realçava-lhe a negrura / Encantadora dos olhos;
Nem desgostos nem abrolhos / Sofrera desde menina
Que apesar de libertina / Orgulhosa e perturbante;
No velho café cantante / Era a moça mais ladina

Os marialvas em tipóias / Iam da baixa num salto
Ver a mais linda das jóias / Aos cafés do Bairro Alto;
A camareira que exalta / De tão singular maneira
Era amada pela cegueira / Que a palavra amor requer
Para mim era a mulher / Mais formosa e mais brejeira

Certa noite de fim d’ano / Em que certo cantador
Cantava ao som do piano / Cantigas feitas de amor
Um cigano alquilador / De têz bronzeada e fina
Por afortunada sina / A Lucinda conquistou
E para sempre a levou / Do café da Marcelina

A letra foi retirada do blog Fados do fado



en um filme que retirei da net o mesmo fado cantado por Pedro Galveias e Ricardo Ribeiro

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Bêbado pintor

Uma letra, do seu letrista favorito o poeta Henrique Rego que Marceneiro musicou com o nome de Fado da Laranjeira, nesta difícil arte de versejar em doze sílabas.

A voz e o estilo inconfundível de Alfredo Marceneiro

Letra de Henrique Rego e música de Alfredo Marceneiro-Alexandrino da Laranjeira

Encostado sem brio ao balcão da taberna
De nauseabunda cor e tábua carcomida
O bêbado pintor a lápis desenhou
O retrato fiel duma mulher perdida

Impudica mulher, perante o vil bulício
De copos tilintando e de boçais gracejos,
Agarrou-se ao rapaz, cobrindo-o de beijos,
Perguntou-lhe a sorrir, qual era o seu oficio,
Ele a cambalear, fazendo um sacrifício,
Lhe diz a profissão em que se iniciou,
Ela escutando tal, pedindo alcançou
Que então lhe desenhasse o rosto provocante,
E num sujo papel, o rosto da bacante
O bêbado pintor com um lápis desenhou.

Retocou o perfil e por baixo escreveu,
Numa legível letra o seu modesto nome,
Que um ébrio esfarrapado, com o rosto cheio de fome,
Com voz rascante e rouca à desgraçada leu,
Esta, louca de dor, para o jovem correu,
Beijando-lhe o rosto, abraça-o de seguida...
Era a mãe do pintor, e a turba comovida,
Pasma ante aquele quadro, original e estranho,
Enquanto o pobre artista amarfanha o desenho:
O retrato fiel duma mulher perdida.



domingo, 1 de fevereiro de 2009

Moinho desmantelado

Alfredo Marceneiro enquanto interprete também faz parte da história do fado. É conhecida a sua faceta de autor mas a sua voz inconfundível, a sua presença e porque não dizê-lo as suas birras, são a nossa memória

A letra deste fado é do seu letrista predilecto Henrique Rego e a música do próprio Marceneiro.


Moinho desmantelado

Pelo tempo derruído

Tu representas a dor

Deste meu peito dorido



É grande a tua desgraça
Ao dizê-lo sinto pejo

Porque em ti apenas vejo

A miseranda carcaça

Perdeste de todo a graça

Heróica do teu passado

Hoje ao ver-te assim mudado

Minha alma cora e descrê

E quem te viu, e quem te vê

Moinho desmantelado


Moinho pombo da serra

Que triste fim tu tiveste

Alvas farinhas moeste

Para o povo da tua terra


Hoje a dor em ti se encerra

Foste votado ao olvido

Foi-se o constante gemido

Dessas mãos trabalhadoras

Doce amante das lavouras

Pelo tempo derruído



Finalizas tua vida
Em fundas melancolias
Ás tristes aves sombrias

Hoje serves de dormida


No teu seio dás guarida

Ao horrendo malfeitor

Tudo em ti causa pavor

É bem triste a tua sorte

Sombria estátua da morte

Tu representas a dor


Junto de ti eu nasci
Oh! meu saudoso moinho
E do meu terno avozinho

Quantas histórias ouvi


Agora tudo perdi

Sou pela dor evadido

Vivo no mundo esquecido

Moinho que crueldade

És o espelho da saudade

Deste meu peito dorido